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Sílvio Cunha

Caxias, Política e Sociedade

A diferença entre dizer e fazer


Até o meio da semana, o prefeito Fábio Gentil(Republicanos) vinha surfando em espetacular onda de popularidade, por causa das ações que sua gestão empreende contra a pandemia do novo coronavírus em Caxias. Mas, sua cota na elevação da maré, exatamente na noite da última quarta-feira, 20, começou a entrar em baixa-mar com o falecimento de um paciente idoso, vítima da covid-19, na UPA do Pirajá, a unidade de saúde especializada da Princesa do Sertão Maranhense para pessoas que recebem tratamento por enfermidades decorrentes do novo coronavírus. Por conta de uma ação administrativa ainda não esclarecida, ele pode sentir na pele como sua popularidade pode se deparar, a qualquer momento, com caminhos tortuosos e escorregadios que o levem a se desequilibrar e cair, pondo por terra todo um trabalho profícuo realizado até o presente momento.

A informação inicial era a de que, na noite de quarta-feira, um senhor idoso, que falecera na UPA do Pirajá, fora retirado e transportado do local por seus próprios familiares, que de lá rumaram imediatamente para um cemitério da cidade, onde eles próprios realizaram o sepultamento. Toda a operação foi acompanhada em áudio e vídeo gravados por pessoas que estavam com o grupo, e o pessoal envolvido não economizava palavras, evidenciando que tinha sido péssimo o atendimento dispensado pelos servidores da unidade de saúde e jogando a culpa de tudo que acontecera para cima do prefeito.

Na manhã seguinte, logo bem cedo, uma emissora de televisão da cidade, fora do eixo de ligação com o executivo municipal, cuidou logo de preparar uma matéria de tonalidade dramático-sensacionalista, visando alcançar ‘um furo’ de reportagem, como se diz na jargão da imprensa, com nível para ser jogada nas redes que exploram esse viés nos meios de comunicação do país.  Quem assistiu à primeira matéria, que obviamente se amparava em caracteres que sublinhavam as imagens e sons do inusitado enterro, com certeza, se sentiu inclinado à dramaticidade do quadro. Depois, veiculada em outra edição, dificilmente se deixou convencer pela nota de esclarecimento enviada pela Secretaria Municipal de Saúde, horas depois, apresentando a versão oficial do fato.

A nota da SMS respeitou, obviamente, a dor dos familiares do falecido, lamentando inclusive a perda de mais um caxiense para a covid-19, mas quem assinou embaixo não teve dúvidas de que todos os protocolos recomendados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) foram fidedignamente cumpridos na tal operação, por sinal, a primeira a provocar  reação contra o trabalho da prefeitura, uma vez que o óbito já era o sexto que acontecera por causa da covid-19 no município e, até então, ainda não se tivera notícia de reclamação aberta.

No noticiário do meio-dia de quinta-feira, 21, reeditando a matéria dramática, e depois lendo a nota da SMS, a editoria da televisão que propagara a denúncia, no final, se apressou em fazer um comentário pondo em dúvida a defesa do órgão de saúde, numa demonstração clara de que o fato deixava naquele momento de ser visto apenas pelo ângulo da realidade para adentrar na política, oferecendo combustível para cabeças dispostas a levá-lo, se possível, ao mesmo patamar dos tempos em que Caxias ficou conhecida como a cidade da maternidade da morte. Nas redes sociais, inclusive, já começou a exposição de mensagens denegrindo a cidade por conta do episódio, num clima de autofagia absurda e desvantajosa para todos que tem laços com o torrão natal.

É compreensível, para nós seres humanos, que em momento de tanta dor pela perda de um ente querido e nas condições impostas pela pandemia do novo coronavírus, os familiares possam se enraivecer e protestar inconformados. Por incrível que pareça, isso é mais comum nos hospitais do que muita gente pensa. Mas foi acachapante assistir-se ao diálogo travado entre os familiares do morto e uma das profissionais de saúde de plantão na UPA do Pirajá. Muito pressionada e apavorada com a situação, a técnica simplesmente se limitou a dizer ao grupo que não sabia o que fazer. E isso que ela disse, infelizmente, resume toda a conjuntura da pandemia presente no mundo, no Brasil, no Maranhão e em Caxias.

A pandemia do covid-19, embora muitas pessoas achem que se trata de algo passageiro, uma gripe de estação, em verdade é uma enfermidade que pode ser altamente letal e ameaça se tornar endêmica, caso não se encontre um antídoto, uma vacina contra ela, rapidamente. Seus efeitos são desconhecidos, e a cada dia surpreendem os pesquisadores. Na China, por exemplo, onde ela se originou e o quadro parecia sob controle, na própria região de Wuhan, já há notícia do registro de novos casos que sugerem que uma nova cepa do novo coronavírus, uma mutação, já se faz presente quando nem ainda se conhece bem a primeira.  Por outro lado, os médicos não têm certeza de que as pessoas recuperadas tenham adquirido imunidade ao vírus.

Na verdade, a doença apanhou a ciência de calças curtas. Os protocolos médicos para tratá-la são gestos que os médicos fazem na tentativa de contê-la, e a sorte sai lançada àqueles cujo sistema imunológico, por alguma razão desconhecida nos postulados de medicina, os fazem levantar das macas e camas de internação, muitos, milagrosamente, depois de extensos períodos, enquanto que outros sucumbem no espaço de pouco mais de três dias. Claro que as pessoas com idade a partir de 60 anos estão mais propensas à doença, mas seu alcance, agora se sabe, não distingue faixa etária.

Em vista disso, que outra resposta a técnica de saúde da UPA do Pirajá poderia oferecer aos que reclamavam pela assistência? O episódio deixou um recado bem claro para o pessoal que integra o Comitê Caxiense de Enfrentamento ao Novo Coronavírus. Porque esse tipo de ocorrência, com toda certeza, foi prevista nas muitas reuniões que o grupo rotineiramente faz. Mas é uma ponta que ficou solta para o prefeito amarrar e não deveria ter ocorrido com tanta facilidade. Se a ocorrência envolvesse a morte de diversas pessoas de uma só vez na UPA, ainda vá lá, mas foi uma situação singular, que apanhou toda a equipe dormindo e agora serve para ampliar o leque de preocupações diárias do alcaide municipal.

A imagem de urna funerária sendo enterrada pelos próprios familiares não é também uma novidade no atual momento dessa pandemia no país. A mesma situação já foi mostrada antes em Manaus (AM), pelas redes de televisão. Mas, mesmo que a Prefeitura de Caxias garanta que tem covas prontas e coveiros preparados e equipados para fazer o serviço, há também a situação das famílias, que têm preferência para escolher o local do enterro.

O que não pode haver é negligência com o modo de fazer o transporte das urnas, que devem estar invariavelmente lacradas, e atentar-se para distribuição de vestes de proteção para os familiares não se contaminarem. O descuido em fiscalizar todos esses fatores, ao mesmo tempo, foi o ponto nevrálgico da falha. Onde estavam os “amigos” de Fábio Cabeludo, que não o protegeram de vestir essa calça justa?! Participar de um governo é dividir tarefas para o bem-comum de todo o grupo político.

Quanto aos críticos, alguns se aproveitando e fazendo politicagem, enfatizar que o ser humano, mesmo com toda a tecnologia à sua disposição nos dias de hoje, ainda não é capaz de trabalhar em regime analítico. Nós já deveríamos estar aprendendo a pensar assim desde a infância, e é por isso que há uma diferença bem grande entre o dizer e o fazer atualmente na vida humana

Imagine você participando de uma equipe de socorro na UPA da Covid-19 em Caxias. Claro que o profissional está ali para ajudar a salvar vidas, e foi orientado a realizar determinados procedimentos para cumprir as ordens estabelecidas. Mas lá não está somente a morte natural, lá, mais invisível ainda, está a morte contagiosa, o perigo de depois sair do local e levar a doença consigo para casa, e isso certamente mexe com a cabeça daqueles profissionais de saúde; os deixa desnorteados pelo altíssimo clima de tensão onde trabalham; presenciar que por mais que se esforcem dentro das regras o resultado nem sempre é o esperado.

Segundo o cientista de dados Ricardo Cappra (Cappra Institute for Data Sciense), os protocolos tradicionais da medicina não funcionam para a pandemia. Na sua avaliação, a medicina personalizada já é totalmente viável, mas os profissionais de saúde precisarão desenvolver habilidades analíticas desde sua formação, coisa que atualmente ainda não acontece. Quer dizer: a classe médica, assim como acontece em outras profissões, aprende ainda pela experiência, pela repetição, com o dia-a-dia, daí  estar acontecendo toda essa dificuldade em abordar uma doença totalmente desconhecida.

Em vista disso, com lastro preso a esse entendimento, é que a Organização Mundial de Saúde incentiva tanto o distanciamento social como forma mais segura de luta contra o vírus covid-19. Não foi à toa que a pauta da última sessão remota da Câmara Municipal versou sobre a oportunidade dos caxienses permanecerem em isolamento (casos suspeitos leves fazendo tratamento em casa) ou distanciamento social, para reduzir o contágio da doença no município. Mesmo as cabeças mais teimosas admitem que não é hora de relaxamento para socorrer a economia.

Quando os vereadores caxienses virtualmente se encontrarem novamente, dentro de alguns dias, a oposição certamente irá se aproveitar do fato e explorá-lo para além do que já fustiga, clamando maliciosamente que o prefeito aplique em obras, serviços e outras melhorias para a população, os cerca de 24 milhões de reais que ainda nem recebeu na sua totalidade do governo federal, para uso exclusivo em prevenção e tratamentos da pandemia. Com um outro olhar para a tragédia do vizinho, pregar malícia, jogar casca de banana ao chão para o outro escorregar, faz parte da política.


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