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João Lopes

Diário da Princesa

Avenida Paulista


O filho do professor de Gonçalves Dias, em Caxias, Maranhão, foi decisivo para a existência desse que é o principal endereço de São Paulo e referência do mundo financeiro internacional.

Há pouco mais de um mês, dia 08 de dezembro, a Avenida Paulista, em São Paulo (SP), completou 130 anos de sua inauguração (8 de dezembro de 1891). Em 1909 recebeu asfalto, vindo da Alemanha -- foi a primeira via pública a receber essa pavimentação na capital paulista.

Já tentaram dar outros nomes à Paulista: Avenida das Acácias, Prado de São Paulo e até Avenida Carlos de Campos, em homenagem a um ex-presidente da antiga província de São Paulo. Não colou.

A Avenida Paulista, sozinha, é um mundo. Um microcosmo. E a sensibilidade do olhar de quem a olha e a sente encarrega-se de torná-la ainda maior.

Já foi tema de novela. Daria muitos romances.

Igual a São Paulo, sou dos que madrugam, ou quase não dormem. Caminho entre seis e sete da manhã pela Paulista e vou observando e absorvendo o sono, o silêncio e a imobilidade das pessoas que formam a população de rua e que àquela hora ainda dormem, encolhidas, sob o frio de nove graus (sem contar o vento), distribuídas espaçada e pontualmente sob agasalhos, próximas aos grandes edifícios, gigantescos totens do mundo tribal dos negócios, do dinheiro.

De volta, no cair da tarde, clima mais ameno (mais ou menos), não há piano, mas ouço música. Aqui um violino; adiante, um violão. Violino e violão que tocam sem pedir, mas são pedintes. Aquele toca “La Vie en Rose”; este, “Hallellujah” (no dia seguinte, o violonista toca meus passos e sentidos com “Killing Me Softly With This Song”).

Professor de Gonçalves Dias em Caxias

O largo passeio da Avenida Paulista abriga passos. Passadas. Passado. Tem em sua história gente de sangue maranhense: Horácio Sabino, que morou ali e foi decisivo no desenvolvimento urbanístico e imobiliário daquela área. Ele era filho de Ricardo Leão Sabino, maranhense de São Luís, um homem de mais de sete instrumentos (militar, filósofo, cirurgião-dentista, empresário, espadachim, arquiteto, poliglota, escritor, estatuário, tabelião, desenhista, músico, aventureiro, carpinteiro etc.).

Ricardo Leão Sabino morava em Caxias (MA), onde foi professor do futuro poeta Antônio Gonçalves Dias, a quem incentivou. Gonçalves Dias morava na Rua do Cisco (ou Rua Benedito leite), a um quarteirão de onde, na mesma rua e muitas décadas depois, eu também menino iria morar. Ricardo Sabino formou um grupo de amigos para juntar dinheiro e mandar o menino Antônio para Coimbra, tal era o talento que ele, professor, percebera no jovem marçano. Anos depois, antes de completar os 20, Gonçalves Dias iria compor a "Canção do Exílio" e conquistaria as mentes brasílicas até hoje, com a onipresença, na memória dos brasileiros, dos dois primeiros versos da “Canção do Exílio” (“Minha terra tem palmeiras / Onde canta o sabiá”) e com a presença de outros dois versos do mesmo poema (os dois últimos do segundo quarteto) no “Hino Nacional Brasileiro” -- “Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida mais amores”.

Penso nisso tudo enquanto caminho pelas largas calçadas da Paulista. Há décadas tenho marcado passos nessa avenida. Aqui perto da capital, no chamado ABC paulista, fiz estudos de pós-graduação, em São Bernardo do Campo. Aqui perto, no Memorial da América Latina, fiz palestra. E, na marginal do Tietê e no Colégio Rio Branco, em Higienópolis, fiz discursos.

Sobretudo, aqui perto e de coração apertado, alma dilacerada, garganta entupida, olhos aguados, mantive vigília, fui escoteiro, “sempre alerta” em antessala de UTI em grande hospital da cidade paulistana que acolheu diversas vezes minha mãe, que lutava contra doença raríssima, autoimune, de nome tão complicado quanto o próprio mal.

Em termos demográficos, a Avenida Paulista, em seus quase três quilômetros, reproduz um pouco dos quinhentos milhões de quilômetros quadrados do nosso planeta. Sua população residente, somente ela, a tornaria umas das 150 maiores cidades brasileiras, em meio às 5.570 existentes.

Pela Paulista soam, silentes ou ruidosos, os passos de pessoas de todas as unidades federativas do continente Brasil e de todos os continentes do mundo.

Por ela ecoam surdamente os sonhos de tantos esperançosos e desesperados, loucos para verem seus desejos transformarem-se em obra tão concreta quanto os pétreos prédios, petrificados como moais nas margens da avenida.

Encosto-me em um canto e tento radiografar semblantes e sentimentos -- na verdade, intuir o que querem tantos corações, os duzentos mil deles que moram na avenida e os milhões que ao longo dos dias fazem um caminho sem rastro nas calçadas. Qual o destino de tanta gente? Qual a forma de seus sonhos, a fórmula de seus desejos? Em que fôrma cabem suas vontades?

Não há resposta. O que me chega é apenas o odor vagabundo de um cigarro, o chacoalhar incansável da caneca de moedas de um mendigo, o som esmoler de um violino e de um violão que soltam notas que poucos notam...

E, acima de tudo, o que me chega, o que vem ao meu encontro na Avenida Paulista é a saudade de minha mãe, que, entubada e mudamente, lutava em leito ali perto e terminaria, aos 49 anos, por não poder, abraçada a mim, dividir comigo mais passos ao longo das avenidas da vida...

Faz frio na avenida...

E chove -- chove muito -- dentro de mim...

Na Avenida Paulista com a Rua Augusta, a antiga mansão de Horácio Sabino, filho de Ricardo Leão Sabino

Fonte: Edmilson Sanshes


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