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Wybson Carvalho

Recanto do Poeta

Há pedras/poesias no meio do meu habitat


Crédito: João Wharles Portela

Para as Palmeiras, os Índios e os Sabiás: retratações de genuíno exercício literário caxiense, que me fazem teimar em cultuar a poesia, nesta terra, ainda, de sentimento nativista pelo encanto e beleza. À memória dos poetas, Déo Silva, Cid Teixeira de Abreu e Nauro Machado!

PREFÁCIOS

Caleidoscópio Poético

Esta obra é a metamorfose de Wybson Carvalho em um caleidoscópio de fragmentos irreconciliáveis de seu próprio EU, retratado nos poemas extraídos dos seus livretos; intitulados: Neófitos da Terra, Eu Algum, Iguaria Real, Eu Algum na Iguaria Real, Inferno Existencial, Ambiência da Alma, Personagens, Necrópoles, Oceanos Não Pacíficos e Nauroemcidade!

Carlos Henrique Sales

TEIMOSIA DE UM APRINDIZ

O indivíduo sonhador Wybson Carvalho é um teimoso e perverso a si próprio face em cultuar a poesia como um exercício de sua existência, sobretudo, e, de seus sonhos que povoam dias e noites de turbulência e fantasias no espetáculo que o acordará para a eternidade da memória lida e escrita do seu esconderijo às paredes erguidas com o barro do seu tempo e, assim, sem dúvida alguma, um dia será poeta.

Déo Silva

INTROSPECTIVA SOBRE O AUTOR

“Ad sum. Nole foras ire”.

Seriam meus dizeres sobre o livro de Wybson. “O ad sum”, estou presente, numa chamada em que se reclama à participação dos jovens uma presença mais atuante neste contexto cultural. Wybson nos assinala sua presença. Vigorosa, como convém aos jovens; telúrica como são forjados os poetas; intimista como é o ser dos jovens. “Nole foras ire”, a característica desta obra é o intimismo. Nada de divagações sobre o mundo exterior, lua, estrela e adjacências: e o possessivo sempre se faz na primeira pessoa. O existencial é a tônica constante, inda que o “coração/bate fora de mim”...
E Wybson se confessa no pronome pessoal da primeira pessoa: “tudo o que sou/ está morto num desejo inanimado” e mesmo quando pluraliza o pronome (“tu foste morrendo em nós”) é o poeta que busca. Na intimidade do seu ser ele encontra “estampado o erro da paisagem”.
Caxias ganha mais um poeta (já conhecido através de Neófitos da Terra, obra que não se pode mensurar, tendo em vista o que ela produziu em nós, de belo e audacioso numa terra que já não canta o Sabiá...).
Parabéns, Wybson; é através de nós mesmos que descobrimos “o que terá sido/ do nascido sem vida”.

Cid Teixeira de Abreu

O poeta Wybson Carvalho

O poeta Wybson é senhor de uma dupla abrangência: a da tradição que lhe antecede e resguarda o verso e a da vanguarda que, contemporânea de um processo sempre a advir, o impele à modernidade do canto.

Sem se intimidar com a tradição imposta por Gonçalves Dias, sabendo-a, como toda tradição, uma túnica a ser usada sobre outros ombros, e sem fugir às experimentações do novo, abrangendo-o pela rarefeição do moderno, Wybson consegue um equilíbrio entre o que foi e o que será.

Sobre aquilo que é, nesses versos que lhe são agora um ponto de onde seguir para mais amplos oceanos, constrói, ele, atualmente, um modelo inicial de engenharia imagética e de fazer lírico.
Seus versos têm, na síntese capsulada das imagens, um impressivo ritmo de urgência e imediatez: flashes momentâneos de um homem a revelar-se em angustia e pensamento pela necessidade do canto. São, estes poemas, a realidade arrancada de uma cidade que teima em cultuar o velho, sem apreender e dar vazão ao novo, que vive, contudo, graças a poetas como este Wybson, testemunha privilegiada de uma nova hora e de um mais amargo e, no entanto, maravilhoso tempo.

Nauro Machado

HÁ PEDRAS E PÉTALAS POÉTICAS

No correr das últimas quatro décadas, nenhum outro poeta teve a virtuosa obstinação de cantar sua cidade (Caxias-MA) com tanto esmero e, por vezes, dissabor, quanto Wybson Carvalho. Sim, sua Cidade das palmeiras, terra do emblemático poeta romântico, Antônio Gonçalves Dias; cidade de homens notáveis que emprestaram suas nobres virtudes à nação. Wybson, que dela pouco se ausentou, viu com tristeza o abandono do tesouro simbólico da terra amada. Viu e cantou como quem ora em lágrimas sua melhor devoção. Este seu "Há Pedras(...) é um contínuo cantochão do amor impercebido, que é, a um só tempo, o despojado amor pelo bem de todos. Aqui, se eleva, enfim, mais uma obra desse querido homem de letras, cuja vida é um exemplo de doação à palavra; de entrega à febre iluminada pela verdade da poesia.

Salgado Maranhão

POEMAS:

Pedaços de um eu algum

Há no meu eu o pulsar de um desejo
e no qual há, ainda, o quê, agora, almejo;
que o fim do somatório da minha dor
não interrompa os gritos do clamor;
face a um pedaço ser bem emudecido em mim,
e o meu outro resto é ouvido, mas ruim...

A sinfonia que me invade desde o nada
é bem-vinda, ainda que quase desafinada;
e eu a quero para sempre almejada
ainda que pouco executada;
face a um pedaço inaudível ser ilusão,
e o meu outro resto não, mas real solidão...

E os versos que, agora, eu escrevo
que não sejam lidos e cantados com desvelo;
mas, como a unicidade do momento
de um poeta imerso em seu eterno tormento;
face a um pedaço ser calado em mim,
mas o meu outro resto é ensurdecedor e ruim!

Um sobrevivente à síndrome “Stevens Johson”

Houve um incêndio afótico dentro de mim.
em trevas e sob a cremação da carne putrefada
emergiu o emudecido veneno
qual direito da alma acasalar-se,
puramente, em si,
e sob correção ao estrago
da cicatriz na natureza humano-espiritual.

Porém,

Haverá nova folhagem
ao homem salvo pela Divindade Criadora
que purificou e lapidou
o bruto complexo psicofísico da criatura.

Então,

A vida torna-se um fiel canto para o encanto de renascer...

Canção ao exílio

Em minha terra havia palmeiras e o canto dos sabiás.
nela, exalava o perfume dos jardins urbanos.
dela, ouvia-se a linguagem singela do cotidiano.
com a minha cidade crescia a romântica dos poetas...

A inimizade humana passava por sobre ela
em eólica turbulência rumo às outras plagas,
para derramar-se noutros cenários de ganância existencial.

À minha terra, na infância, ouviam-se sinfonias sabianas
nas manhãs iniciais de um futuro já desenhado ao abandono.
e, agora, quais árvores darão abrigo a outros pássaros canoros
para entoarem um canto de saudade?

Cachos de flores
(ode a Caxias)

Quem amou, verdadeiramente, te chamou de princesa
e quando quiseram arrancar de ti o sumo nobre...
não aceitou beber o cálice com teu sangue

Quem ama, fielmente, te chama de lírica poesia
e quando querem declamar de ti o poema nativo...
atenta para ouvir os versos brancos do teu véu

Quem nunca amará, em verdade,
te trairá sob cunho promíscuo...
e quando quiserem usufruir de ti
a beleza em ônus mercenário...
ofertará a plebe de teu reino
e te deixará órfã de viva natureza...

Mentira

Voz ocupada
numa canção desafinada
que ensurdece a harmonia real
e decresce o desejo ao nada
sob a fuga agoniada
para o encontro do mal.

O rio refém

A parca víscera líquida sob a ponte
leva a magra lâmina doce ao destino corrente
para a imensidão gorda de boca gulosa
e estômago viciado à digestão salgada.

Razões

Felina, a unicidade.
Rita, Ana e Juliana, a tríplice dádiva:
minhas ávidas tentativas de ser...

Fome e sede do Itapecuru

Com quantos dentes mastigas as vidas
engolidas por ti no escorrego dessa garganta
de correnteza lenta de águas servidas
formando o esgoto com uma só víscera
que secará dia-a-dia
face á derrubada de tua cabeceira vegetal
expondo margens de areia quente
sob mil sóis cáusticos

Em contra partida
na simbiose maldita e mais rara
com agonia são retiradas de ti
vidas que saciam estômagos famintos
ao teu pasto serviçal de acasalados espíritos
em corpos vivos e armados com ferro e nylon
mergulhados na tua parca lâmina líquida
vestida e suprida de dejetos
que amputam os braços afluentes
a oferecer veredas secas
à mesa de tua morte anunciada...

Mendigo

Em grito por água
a voz rouca fugida da goela seca
é a única canção da sede
em quem estende a mão aberta
ao aceno por pão
para ocupar o vazio
habitat da fome.

Ir aonde

Meu corpo baldado sobre os pés feridos
com as pedras de um caminho escuro
deixam rastros vermelhos
sem chegar ao alcance
vertical e finito do espírito alheio.

Eclipse

Quando uma noite de lua apagada suicidar-se
para libertar um dia anunciado
por um sol encoberto
com um manto de nuvens carregadas,
sou eu morrendo sob o testemunho de pesadelos
em sono trágico a novamente despertar
para mais um compromisso ressuscitado
à cinzenta agonia de existir...

Ambiência da alma

Agora,
obra edificada em sangue, osso e carne
num complexo material.
após,
aroma advindo da fogueira infernal
sob o jugo do pecado pago.

Sem luz

Por que é tão demorada a história do tempo
neste meu livro de única página:
- eternamente,
dia nublado de um sol negado
e
noite entristecida de uma lua não aparecida.

Bar

Literalmente,
um pasto abundante de iguarias
servidas às almas, nele, famintas
em vulnerável alegria da embriaguez
e sob espetáculo do teatro possível;
cenas protagonizadas por atores da fantasia,
necessária.

Baile de carnaval

Abrem-se em liberdade as portas da vergonha
e as máscaras da verdade servem como fronhas
escondendo os rostos no dantesco bacanal
a maquiar os desgostos da fuga irreal.

Um réu ao cálice de fel

Os pecados que são imputados ao homem
são cores afóticas
como o olhar demoníaco nas trevas...
porém,
ele mira a vida seca caída num esgoto de água turva.
então,
em seu suicídio inundado,
a alma será perdoada pela resistência à ira infernal.

Amputação

O que tiram de mim
não farta a lacuna da ganância ao alheio:
se diminuam o pão e limitam o vinho
à minha mesa de refeição,
enfraquecida fica a matéria.
mas,
o osso coberto por carne magra
embranquece o sangue
e a claridade da cor
reflete a luz da fé, ainda, em vida.
então,
o que me faltar putrefará o bastante
daqueles que, ao tomarem, adoecem de mim.

Carnaval

Abundância de carne animal
repartida aos participantes do teatro infernal;
eis,
a iguaria vadia da fantasia...
mistura de utopia e alegria:
homens e máscaras em memorial
e
sob marchas em euforia no bacanal.

Quarta-feira de cinzas

Há homens derramados nas passarelas
e rostos de alegria apanhadas nas sarjetas
pelos foliões da última noite...
momentaneamente, um período dantesco se apaga
para tudo retornar à luz anual
da próxima edição do evento popular.

Cremação

Os raios de fogo do corpo inerte
são fachos de luz a rodearem a angústia adormecida
de um céu sem acesso para a alma amputada
e sob pranto de sangue derramado sem fé
à mendicância do perdão julgado.

Onipresença

Quando a matéria inválida tombar
obediente à natureza cumprida
e imergir ao barro...
estórias de liberdade
serão tecidas sobre o ser
que não mais está cíclico ao meio...
livre é ser sem estar
e sido em sendo o verbo, ainda.

Fome

Ausência de iguarias
nos recipientes à mesa
do oferecimento aos desvalidos...
presença do vazio
nas vísceras do estômago
embrulhado pelo papel da sociedade...

Árvore frutífera

Numa terra Fértil
três raízes, nela, fincadas
pelo ser propício e semeador
para nutrições Reta, Ampla e Justa
às frutas de sua vida.

Meu sol

Emersa luz de vida fugitiva
dos montes em véus escuros
e carregados de prantos posteriores
à rega temporária da terra cáustica

Vem e prepara a coberta de calor
que transforma em cinzas
os momentos matutinos e vespertinos
da agonia, diariamente, seca.

Não ir

Meus descalços pés andarilhos
levam meu corpo baldado e nu
ao caminho algum de repouso
no qual chego carregado de nada.

Ceticismo e crença

Eis a questão!
sal, ao pão, para a existência da matéria
doce, ao vinho, para a vida eterna do espírito.
aleluia à fé...

Autêntico

O que me é inválido
torna-me ávido a não realizá-lo...
então,
faço-me válido
ao que me há...
refém é o ser com ônus
aos interesses outros.

Peso

Não há verticalidade
só o horizonte vultuoso
é ofertado pelo cunho
de ser indivíduo social.

Mãe

Paraíso da carne em sangue
de uma nova luz à vida
derramada por sobre o destino
continuado a um ventre, abnegado.

Ônus

A moeda tem dois lados:
à face, a aceitação do ser;
à coroa, se aceito, o alcançável valor.

Companheiras/os

As ilusões certamente se colidem
e os erros idem:
convicto, num tempo ausente, estarei.

Quem sabe as ilusões existem
e o que houve é constante
sem, agora, querer terminar.

Eis que, aos enganos permanentes,
meu espírito à minha companhia
não se juntará em tempo algum.

Fim

A certeza do termino acompanha-me
como ferida sangrando
a alma do poeta.

Não há mais cura.
todo o silencio envolve-me
na inflamação da cicatriz
memorável em queda.

Tua história

Teu tempo, um lixo:
espetáculo mudo à vil face do falecimento
caído à lama e no palco da putrefação.
teu mentiroso corpo, em carne,
apodrecendo imerso na cova sem paladar.

Eleição

A multidão é soberana em seu caminho.
impróprio é o único a traduzir-se nos discursos:
- deem-me à graça; quero-a para todas/os
no aglomerado e subserviente rumo ao poder.

Enigma editorial

O verso apodrece
qual verme habitante
nas vísceras da fome
e o poeta se faz pecado.

É pois,

A angústia indigesta
sob a ânsia do vomito
em pedaços do verbo
derramado ao papel.

Opção

Fui, sou e serei
o filho não pródigo
sem casa para retornar.

Sob um sol de brasas,
outros passos levam minha alma
- queimada e acasalada –
nos dias sem querer descanso
e na escuridão da noite,
como eu,
abandonada pela lua e estrelas
de um céu alheio.

Coração metafórico

Não músculo,
mas ferida séptica e inflamada
pelos esgotos da decepção
e cheios de alma consequente
da podridão a exalar
o odor mentiroso do sentimento foragido
- emigrante sem retorno –
a espirar aroma fúnebre da cal
sepultada em pedra, agora, permanente.

Partida

Homem:
você seja forte chegou o momento
enfrenta a morte faz seu pagamento
devendo na vida e credor do perdão
deixa na partida seu corpo para o chão

Vai para muito além, eu irei também.

Calada a matéria no lar sepultura
em respeito à santa criatura
grita o espírito aos pés do senhor
pergunta esse grito ao santo criador

Se direito tem de clamar amem!

Fogueira à embriaguez

Estou tão só nesta sexta-feira.
sinto tanto frio neste último dia útil.
há dentro de mim uma sede ao álcool.

Meu coração quer se aquecer
à margem de um vulcão, em erupção constante,
que derrame larvas acesas a incendiar

Meu corpo acasalando solidão
nos dias subsequentes do final de semana:
sábado e domingo inúteis
a um cotidiano de fogo algum.

Féretro

Deitarei na madeira fôrma.
pagada estará a luz dos meus dias e noites
- sol, lua e estrelas fogem da vida terminada -
o amarelado fogo das velas envoltas
iguala-se ao meu pálido corpo inerte
e estendido qual iguaria posta à mesa do velório.
já estará faminta a profunda cova
aberta com a língua úmida da morte
e os dentes afiados no cio da solidão.

Naturezas:

A animal,
o instinto criou o coração em mim
dividido em faces iguais -

A divina, à fé acasalou o espírito
noutro eu aglutinado
pelas emoções diferenciadas.

Qual porção é a verdade minha?

O cérebro juiz da razão
emudecido à resposta lógica
sobre eu nenhum compreendido.

Eu

Preso às circunstancias grupais
escravizo-me em inúteis fugas
alheias à unicidade.
sem encontrar abrigo individual
multiplico as buscas pelo zero
à esquerda de mim.

Caminhos

Muitas pedras num rumo certo.
seguir, em passos firmes.
final feliz, conseguir acerto.
chegar jamais, erros demais, não ir além.

Sentença

Incriminar o errado
julgando-o seu
sob o domínio.

Possesso é, pois, o réu
em submissão contínua
a calar-se ante a verdade
dita nos momentos errôneos.

Possessiva é, pois, a juíza
sem dar de si
um mínimo perdão
incriminado à condenação.

Construção em nicho

De qual nutrição se serviu a raiz,
para edificar o ser em barro?
... se, em lágrimas de sofrimento,
não basta a heterogênea mistura
de areia e cimento que arquitetam o esqueleto
na forma da armação
coberta de carne, nela, afixada
pelo molho do sangue.
é, pois, o nada, que restar do concreto
e tudo à eternidade.

Os poetas

Andarilhos sob um mesmo calvário.
anjos ou demônios terráqueos.
pretensiosos, querem adivinhar
a cor da ambiência celestial ou infernal.
inépcia, é a conclusão desse verbo escrito.

Correnteza do pranto

Em sentido único
as lagrimas escorrem
como caricias na face entristecida.

Caem ao chão onde piso
e inundam meu horizonte
imergindo os pés sob passos afogados.

Inanimado

Desde o nascimento,
existo em uma queda constante.
até agora,
mão nenhuma me levanta
da existência vazia.
o caminho da vida, que não há,
arbitra meus passos
por sobre a morte estendida.
nela, estará meu abrigo
em fúnebre eternidade.

É hora da morte

À mão aberta
está o m do teu nome.
ele, em queda, esvai-se por entre os dedos
e derrama a final agonia pálida.
vem, covarde espelho do mistério
leva-me para o nada
de onde eu não deveria ter vindo.

O após

Amanhã, quando as demoradas horas
concluírem mais um dia,
a noite, urgentemente, irá propor
um sol errante que se apagará
antes da manhã rompida
e as nuvens escuras e intrometidas
virão separar um céu derramado em trevas
por sobre eu embrulhado num manto cinza
e sob a tempestade de um hoje
sem querer, novamente, acontecer.

Enterro inundado

Quando a infalível morte vier
e secar o líquido que correu
nos canais da minha natureza física,
quero, em último desejo, que meu féretro
aconteça em plácido percurso
sob um assassino vendaval e uma feroz trovoada:
- será o bravo tempo baldando-se
em um choro pavoroso
e sobre uma enxurrada correndo
nas sarjetas do percurso à cova:
- será o tempo em solução às lágrimas
derramadas pela vida que me fora apagada.

Insônia

Por toda noite
insiro-me no que restou do dia
para fugir acordado do pesadelo.

Baldado,

Amanheço a extrapolar meus extremos
a fim de estar sem limites
e prosseguir na existência
de mais uma aurora.

Flâmula colorida

O verde, fotossinteticamente, parco de esperança;
o amarelo, retratando a palidez
da desnutrição maciça;
o azul, ilusório ao espelho vertical
da massa agônica;
o branco, intelectualmente, a consciência hipócrita
do símbolo imerso no negro da lama social.

Chuva

Lágrimas caídas de um imenso olho azul
que, momentaneamente, escurece
para derramar seu pranto
no rosto da terra.

A/amar/morto

Meu coração está vazio...
antes, cárcere abrigo às paixões utópicas.
agora, oceano inabitado à nau sem âncora
e sob naufrágio em vendaval interminável.
eis que, imerso num mar de ilusões, não pacífico,
afogado está meu corpo à água e ao sal...
enfim, minha alma surge de um fel continental.

Perdão

Natureza e obra eterna,
unicidade ubíqua em onipotência e onipresença,
- caí em tentações pecaminosas!
livrai-me de insidiosa luz do fogo.
mas não me deixes nas trevas.
não sou digno de beber do vinho e comer do pão!
porém,
lavai-me as feridas com meu próprio sangue,
aliviai-me a dor para que sacie a minha própria fé,
e, então, salvai-me do que fui ao abençoar o que serei.
rogai-me, amém.

O dia maquiavélico

Homens...
quisera mutilá-los para que não comparecem
à maratona e, assim,
deixassem de cumprir o depósito ao credor do prêmio sujo;

Quisera cegá-los para que,
na hora dos vossos erros,
o olhar do íntimo transparecesse
a veracidade do ato culposo e insidiador da cidadania;

Quisera, àquele dia, que a manhã
não desvirginasse a madrugada
e viesse afótica para que,
nas horas com trevas,
a escuridão mostrasse a
abstenção a todos nós e,
verdadeiramente,
nos tornasse os eleitos e vencedores.

Limites

Céu,
mira diária do meu cotidiano vertical
onde está a busca credora?

Terra,
palco dos jardins ilusórios da certeza:
esses ingênuos céticos da realidade
desvairada no camarim do teatro infernal.

Refeição da carne

Não cabe ao homem o pão,
não cessa à vontade a sede,
embora,
o trigo e o vinho
dividam o espaço, também,
habitado por vermes.

O último adeus

Nas asas do tempo já cumprido
irei num voo rasante
até a parede da eternidade incerta
para descobrir o que nem fui.

Poema da parição

Mulheres, vacas, éguas, porcas, cadelas
e tantas outras fêmeas mais...
- todas paridas -
enfim,
eis que surgem e se multiplicam
os animais no corpo da terra, mãe.

O poder

Poder é sempre um espelho
a refletir imagens:
reais – dos que o detêm para aqueles que o querem
irreais – daqueles que o querem, mas não o têm.

Iguaria real

Em mim há uma porção negra:
confusão de minha origem ao apuro da morte
- qual vela apagada à existência.

Opus caxiense

Caxias, palco invadido por claques outros
a marginalizar teus nativos artistas,
em teu báratro complacente.

Travessia

Dia-a-dia
oh! continuísmo de instantes claros e escuros:
passos numa trajetória de, simplesmente, existir.

Valsa do descompasso

Quando meus passos estiverem bailando
de um lado para outro,
a personalidade dos indivíduos será abalada
ao prosseguir nas vias estáticas
do comportamento social.

Oferta à vida

Haveria prata, ouro e diamantes,
se eu preferisse caminhar certo
pelos tortos e estabelecidos caminhos
pautados em tua ambiência.
mas,
vesti-me do nada
e rumei por veredas aziagas
do meu inferno existencial
a destruir ilações sobre nosso espaço.

Partes de mim

Divido em faces, traduzo o meu afã
governado pela virtude tabulada.
quisera, unanimemente, existir
para recompor o meu íntimo.

Ele e nós

Pai, Filho e Espírito Santo:
essa tríplice ubiquidade além comunhão, em vida.

Homem, povo e terra:
esse nicho disperso aquém ambiência, à unanimidade.

Ávido à solidão

Continuamente estranho encontro-me só.
desprovido de muitos naturalizo-me unânime.
obedecendo à vontade presente,
recordo-me sempre ausente de mim.

Beco urbano

Meus pés molharam-se nas lágrimas da sarjeta
- via aonde os homens passaram exibindo verdades.

Meus olhos cegaram-se na rigidez da vergonha
- virtude onde os indivíduos negaram exaltando mentiras.

Animais e animais

Os homens do inicio içaram a criação;
os homens do meio imergiram a inteligência;
os homens de agora inventam sob ira;
os homens do amanhã, não existirão.

Ordens em vão

Homens ávidos à paz
insidiaram a causa da ira.

As armas frias e de fogo
não mais mancharam o mundo,

Então,

A intenção de viver
paira em novas certezas.

Porém,

A vida continua tão insuficiente
que não alcança o mínimo...

Incerteza

O que terá sido do nascido sem vida?
apenas erro da natureza...

O que terá sido do ausente e esquecido?
apenas fugitivo passageiro da agonia...

O que será daquele que virá...?

Retrato vermelho

Coração,
bate fora de mim exalando sangue,
para que possam sentir próximo:
tenho uma vida.

Coração,
age e leva o meu corpo à atitude animada,
para que possam ver próximo:
sou natureza.

Obra da cor

Ilusões estratificadas;
retificando cores: o branco e preto

Inépcia social;
estabelecendo classes: a dominante e a oprimida.

Porém,

O gozo natural
é capacidade animal dos homens à digna igualdade:
toda vida em mesma líquida luz vermelha do sangue.

A cidade, eu e nós

Em ti
mátria areia minha
filho de filha tua
sonho de cidadania
esboço de tua rua

Futuro cômodo eterno
mutação de mim em ti
caráter já paterno
às filhas minhas e tuas

Eu a prosseguir;
retratação de nossa continuidade a emergir.

Tempos

Falem-me sobre as veredas claras dos horizontes infinitos
aos olhos sem luz e a insidiarem o seguir da razão
talvez,
- carente –
acreditarei nos sonhos dos velhos
vividos pela embriaguez dos destinos ocultos aos novos
e na sabedoria de caminhar
embora,
- crente –
tornar-me-ei um bêbado de mentiras
a cuspir a ressaca das verdades
e vomitando o pão podre do passado
portanto,
beberei o vinho de fogo, futuramente.

Pão

Saciar a matéria para o continuísmo do espírito...
aleluia! à colheita.

Sócio-elitismo

A razão à flor vermelha, livre, igualitária e memorável,
tornou-se ávida a emergir no oceano humano
pela liquida vida em mesma cor.

O individuo à ideia colorida, ilusória, parca e infiel
insidiou-se alado no sentido diferenciado
qual séptico jardim em poda da existência.

Nossa fotografia

Aglutino minhas letras às tuas palavras
construindo, esteticamente, o poema de tua forma:
pura, singular e bela.

Os versos do teu corpo
descrevem a perfeição do meu desejo
retratando, euforicamente, a luz da minha observação:
calada, intima e agradecida.

Retalhar a transformação

Além da viagem
quando a carne, o sangue e o osso
não mais acasalarem o espírito
- aladamente –
esse réu de fé
tornar-se-á um vendaval na partida,
para dessa desencarnação,
fazer-se historia de um vôo á eternidade.

Eu algum

Tudo o que sou está morto num desejo inanimado
e sem vontade horizontal.
..., e
tudo o que serei estará contido em forma transparente
ao lado avesso do invisível.

Um suicida

Domínio da inconsciência
caçador do ato imoral
transformada aparência
retrato do mal.

Imposto o desejo pecador
guia do errante caminho
tal ensejo destruidor
de um animal sozinho.

Vil ilusão sem sorte
começo da viagem enlouquecida
coragem para a morte
medo da vida.

Ônus do haver

Não haverá diferença
- que de um tudo unânime consistisse;
não haveria erro
- que o encanto acidentasse o fato;
não haveria causa
- que a intenção içasse a atitude;
não haveria consequência
- que a realização autodeterminasse a virtude;
não haveria destino
- que o desejo mostrasse o caminho;
não haveria perda
- que a mutação fosse continua;
não haveria fim
- que o viver insidiasse o desaparecimento.

Prazer inicial

A carne
– todavia –
afronta-se com o desejo que arde em si.

O espírito
– contudo –
inibe-se baldado pelo posseiro ato.

Embora,
líquido dessa carne banhe a minha vergonha,
esse espírito, também meu,
alado num álibi,
voa no espaço que há entre ambos.

Báratro dos bêbados

Canto transparente da solidão:
lugar meio séptico,
há homens torturados sob falsa alegria,
copos cheios de ativa verdade,
goles de puro ceticismo,
embriaguez da mágoa,
limpa ausência da razão,
retrato do banal domínio,
uma cópia da fuga existencial.

Afã inacabado

Sobre o mesmo caminho,
caminharíamos nossos passos
intencionados ao que não pode existir.

Sob o mesmo sol,
aqueceremos nossa despedida
face aquilo que não é possível.

Sobre a paixão e sob a razão,
morreremos nosso fim
sem que tenha havido sequer o início.

Administrar-se-ia a polis lestiana

Se, houvesse...
humildade para aprender;
inteligência de criar;
igualdade em transformar:
aprendizagens a serem capaz do ser lestiano...

Cio da refeição lestiana

Tua terra, a planta e a água
dão o alimento para a vida continuar.
porem,
teu trigo, a maçã e o peixe
são o direito de vida negado
posto à mesa dos munícipes lestianos.

Loca alheia

A polis lestiana curva-se aos adotados
qual cobra mergulhada no buraco
para esconder seu veneno
e estragar a terra.

Necrópoles lestiana

Lugar sem o sabiá,
lugar sem o canto,
lugar sem a lira,
lugar sem a harmonia,
lugar sem o seu lugar!

Doença à polis lestiana

É horrível a dor da gula engordada aos mínimos
e secando a fome da imensidão.
pois,
indisciplinada é a emagrecida estética
acasalando necessitados na polis lestiana.

Saneamento superficial

A alma da cidade é banhada em água servida
corrente na sarjeta a céu aberto das vias públicas
qual lágrima escorrida na vergonha lestiana
dos transeuntes a inspirar o odor urbano:
fezes e urina são a oferta sem saneamento.

Insônia tumular

O dia cinzento amanhece
oferecendo suas horas
para que eu percorra a polis adormecida
porém,
quando a noite vier
eu terei a negação em vida urbana
para agradecer aos novos dias
de um mesmo tempo vil à lestiana.

Dor munícipe lestiana

Uma dor está impregnada em mim
e há muito iniciada
rasga a carne, seca o sangue e quebra os ossos
sem prever o fim...
com isso,
vai, aos pouco, exilando
a alma da polis lestiana em mim.

Esgoto

O odor interrompido na narina rota
e a vergonha escondida sob a face
...
é a mão erguida do munícipe
nas vias públicas
exposta a céu aberto.

Vestuário de forças

Há anos
a polis troca-se e se veste
com a mesma roupa:
concreto por sobre
as múltiplas negras arestas urbanas.
porém,
os munícipes lestianos estão despidos
da humanologia social
e a sós.

Refeição à ganância

Na polis há porções negras:
confusão dos sabidos
ao apuro da sorte dos necessitados
e sem velarem a digestão
da passageira existência.

Poder da polis lestiana

És sem um espelho
a refletir imagens:
reais, aos que o detêm
para aqueles que o querem;
irreais, daqueles que o querem
mas não o têm.

Mesmice da pasmaceira lestiana

Munícipes são um só desencanto
no igual caminho da desesperança
crianças, jovens e idosos inconscientes
todos, igualmente, desvalidos e necessitados
dos parcos anseios almejados.

Opus à polis

Estás palco invadido
pelos claques outros
a marginalizar teus nativos atores
advindos do teu ventre complacente.

Marcha acanhada

Corpos em passos largos
nos logradouros sintonizados
à cantiga lestiana abalada
com o prosseguir estático
das promessas, socialmente, descumpridas.

Montante lestiano repartido

O muito para poucos
e dividido aos obedientes
à atitude tabulada e cíclica.
o pouco para muitos
e esmolado à mendicância
sem compor as carências sociais lestiana.

Mendicância lestiana

Ecoam gritos por água e pão
em vozes rocas e desesperadas
e sob fuga inútil da sede e fome...
é a canção que retrata
as bocas abertas e estômagos vazios
dos polislestianos no habitat urbano.

Polis lestiana mendiga

Por lisura lestiana...
clamo à sega deusa da justiça
dai-me a sensatez; por dever...
dai-me a consciência; por direito...

Comícios na polis lestiana

claques baldados e ensandecidos...
periodicamente,
o luminoso local escurece a razão
para todos na pós escuridão irem àquele logradouro.

Negação

Por dever ao direito lestiano
o não entregue aos carentes
não sacia a ganância dos abastados.
em verdade,
se abstêm o pão e o vinho
à refeição necessária
atormentam-se na fobia social
e causam a putrefação de sua posses.

Polis lestiana viciosa

Qual a estrutura de cimento desumano que possui?
alma de pedra que engana e seduz...
edifício de tanto vício e malefício
sem ter jamais o perdão do Santo Ofício!

Um cão lestiano e eu

Quisera eu ter a liberdade de um cão vadio e
transeunte pelas vias públicas,
tal qual realidade desapercebida
e, dela, somente avistando-se a própria solidão...
mas, tão unicamente entre muitos,
sou iminência canina à multidão
que sofre a dor da ferida que causo sem morder
e se nega sob o silêncio de um latido
emudecido por minha impossibilidade de ladrá-lo.

Valor patrimonial lestiano

A polis deve estar para a história;
assim como o esqueleto
arma-se para a plástica do tecido muscular...

Paralelepípedos escondidos nas vias públicas
e
escombros das edificações etárias:

Eis, o que a polis é...
eis, como a polis está...

Pertencimento humano

Mesmo assim como tu és,

Oh! torrão lestiano,
quero para sempre te pertencer:

Um grão de areia no teu chão sob um sol cáustico...,
o barro escondido nas paredes da construção de tua eternidade...

A ti, eis o que sou!
em ti, onde estou!

O ser e a poesia advindos de mim

Minha poesia veste-me com essência sabedora ao interior a mim
e emudecendo meu grito ensurdecedor à negação que há nela.
é a prisão na qual sou condenado e estou
a extrapolar-me liberto à ambiência alheia.
é a imensidão em sal oceânico e chão cáustico, solitariamente, desértico...
é a diversidade de todas minhas linguagens artísticas sem plateia alguma...
é a obra que, humildemente, ofereço à humanidade...
é o ser a querer-se compartilhado a quem me necessitar...
e meus versos?
- são partes extraídas de minha alma inteira a se mostrarem inibidas aos outros seres sem aceitação nenhuma!
o que é minha poesia?
é a somatória das imagens etárias - do passado encontrado no presente - escritas na negação imagética do futuro.
obriga-me, fielmente, a negá-la em mim tal qual confissão ausente.

Poeta lestiano

Quando nasce um poema em mim,
há um terremoto de decepções...
é como deglutir um álcool ruim,
em busca de necessárias ilusões.

Quando morre um poema em mim,
há os escombros de meu espírito...
é como um vomitar o Caim,
em expulsar o condenável grito.

Existir ou não na polis lestiana

Antigamente,
havia riquezas: natural, mineral, industrial e moral

Atualmente,
há pobreza: ao cidadão em comunhão no lixão.

Predatório piramidal lestiano

Autoridades socialmente estratificadas
reúnem-se em polvorosa...
é a arquitetura maquiavélica e neogrupal

O ápice vitaminado em maiores escalas
a camada em vias dolorosas
è a amplidão às bases sob novo fato brutal.

Polis lestiana sem alma

A população;
está na cidade
dentro e carente dela...

Em verdade existida:

A cidade;
não é da população,
nem para a população
e nem pela população!

Arrogante lestiano

Arroto da ganância
em estar sem ser...
insolência do individuo
ao revelar-se soberbo e atrevido
por benesses do poder

Angústia plagiada à naureana!

Abre-me a cova, espírito-poeta,
enquanto uma estrela busca em mim,
agora, a treva infinda,
sem luz alguma no meu olhar a vê-la
nessa cegueira a ser da altura vinda.
assim, espírito-poeta,
adentrarei a noite a sabê-la
que chegada a hora o sonho será terra,
o medo dirá seu último vintém,
e o passado e o futuro serão guerra
do inválido sobre a terra de ninguém.
Árvore gêmea à que em dor se enterra,
a terra se abrirá em busca de outro além,
e, unidos, ambos, corpo e terra,
a alma errará vagando aquém,
mas, morta também!

Futurologia munícipe lestiana

Há em mim um pranto
esvaído dos olhos e me faz acalmar o animalesco desejo
a ser poderoso e preferir ter o anonimato social
na estratificação da cidade piramidal...
sem brilho próprio e de letargia permanente
a oferecer no logradouro evidente
o pão e circo advindos,
com gestos governamentais
e permissões espirituais...

Essa cidade piramidal
sob o banho de sol cáustico
não é como ao tempo prometeram
mas, um imprevisível vendaval
afogando mais o que é obscuro
e se unirá à cinza de um antes vespeiro...
daquilo que se foi não sei aonde
como castigo ao vindouro tempo futuro
sob um carbonizado e municipal desespero!..

Encantamento infernal

Quando nasce um poema em mim,
há um punhado de convicções...
é como deglutir um álcool ruim,
em busca de necessárias ilusões.

Quando morre um sentimento em mim,
restam os escombros de meu espírito...
é como um vomitá-lo no fim,
ao expulsá-lo sob condenável grito.

Querer e não ter

Meu olhar íntimo se surpreende ao se deparar por dentro de mim
e descobrir o que sou...
um obsesso e desesperado intérprete
de um personagem mendigo àquilo impossível...
porém,
obsessão é um abismo entre o vil querer e o não poder ter...
e as paredes da escuridão profunda separam cada vez mais...
desejo almejado e negado em relatado à minha subjetividade...
enfim,
obtenho o filtro da consciência afã,
ainda, um perdão vital
sob a promessa de não ser estorvo...
à mendicância!

Sentenciado

inculpado, mas transformado num ser;
enfermo, desiludido e tão só...
sem horizonte a seguir e com inércia se alimentando de mim!

não preferi esse presente letárgico;
começo sem terminar e espera sem fim:
- por qual crime fui julgado como um ser ruim?

Nauro à cidade

O sal que banha essa ilha...
o barro escondido na construção desse patrimônio cultural da humanidade...
eis, o que Nauro é...
eis, onde Nauro está...
eternamente, São Luis do Maranhão...
agora, o homem, o poeta e a cidade
estão completos e se contemplam em si próprios!

Homem-pássaro canoro

Milton; um fiel canto
ao encanto
de um eterno... Nascimento

Cidade, cidadão e cidadania

Homem; célula da humanidade...
cidadão; célula da sociedade...
o habitar social do homem é a cidade...
a cidade é o palco da humanidade
no teatro da personagem e personalidade
ao papel protagonista e coadjuvante à amabilidade!

Meu pó à posteridade

As ruas de minha cidade em mim
têm o piso com paralelepípedos feitos de tempo
e eu transeunte a elas percorro-as
cambaleando à procurar o barro
do qual advim desde o meu início
e ao qual retornar-me-ei sem um fim almejado...!

Sentença

Simplesmente, existir...
ó vácuo estéreo e solitário
à insistência de nada!

Presunção

Único...!
sois rei habitante
de teu turvo autodomínio
e engoles tuas próprias labaredas
à engordar teu intestino febril,
aquecido e em solidão!

Ilação

Alado, mas inerte
almejas o firmamento sobre ti
sem nuvens e seque arco íris...
então,
perpetuarás tua vontade
fincada no teu solo desértico
feito prisão terráquea e infernal!

União e semelhança

Emudece teu eu e ausculta a multidão,
cíclica teu olhar à unicidade
de teu complexo psicofísico...
aí, a verdade de todos prevalecerá:
a carne, o osso e o sangue é vida
em mesma espécie que acasala
a alma da humanidade!



A Divindade não tem matéria...
Ela é a dimensão do infinito
ao olhar do íntimo,
à produção do feito
e consequência do efeito
no amor!

Morte

Ó momento findo sem luz
intensifica a dor e diminui meu tempo
a findar adocicando o sal
da minha carne e tornando água meu sangue
para franquear a saída alada do espírito
e à putrefação a carne como tal tempero
com paladar indigesto da cova
para ao barro retornar...

Etária natural

nutre-me de alimento
para a corpulenta matéria, existir em tempos...
eis, a estratificada pirâmide da vida:
nascer à criancice,
crescer à adolescência,
amadurecer em adulto
e morrer no pós velhice!

Insônia

À noite;
não há um adormecer
após o dia...
minha tarefa na manhã e tarde
me foi inválida ao cansaço material
e ao findar das horas diárias
meu pensamento se povoou
de tarefas cheias e turvas de nada!

Afonia

Se minha verdade dita dói
e, arbitrariamente,
permanece à mentida calada
sob um desejo ensurdecer ´
no meu íntimo condenado!

Pasto aos faminto

Não sacia o alimento nutrido de nada
aos muitíssimos ofertado em recipientes vazios
postos à mesa dos múltiplos famintos...
mas, à abundância de iguarias
no banquete à gula dos pouquíssimos
adoece de superlotação insípida
as vísceras elásticas à ganância
ao repartir o pão da fome social!

Multiplicação dos seres

Tua prole crescerá
tal qual os dias se sucedem às noites
pois,
deles às elas
corpos e almas dar-se-ão
no instinto animalesco
à construção da vida continuada!

Primogênito

exemplo é saber-se início
à entrada ao meio
percorrê-lo sempre e sumariamente
até o fim de todos...!

Eternidade

Todas bocas abertas à nutrição...
todas almas fervorosas à fé...
eis, então, o pão ofertado
com a vida do Senhor!

Único

Ele, sem espaço noutro
habita em si próprio
e entrega-se à sua solitária cidade
para ambos se completarem
e se contemplarem em comunhão recíproca!

Habitat humano

Cabeça, tronco e membros...
eis, o acasalamento pronto ao espírito...
a vida está a postos no corpo!

Oração ao cio

Dimensão terráquea à fertilidade
para a nutrição da matéria
saciai-nos a fome de nossa idade
e afastai dela a miséria!

Mudo

O grito afônico espanta...
em plural da boca aberta
e quebra o sentido da palavra
não dita perto.
portanto,
o mimetismo aponta...
o singular dos dedos à mão certa
e indica o que ela lavra
para cumprir o gesto correto!

Meta

A dimensão do afã poético
é diretamente proporcional
ao sentido emocional
em verbo inspirador e ético!

Fim

A escuridão aos olhos,
boca de lábios unidos,
vísceras cheias de vazia fome,
rigidez dos ossos,
putrefação da carne,
enfim;
o corpo é iguaria à cova gulosa de morte...

Cova de barro

Ó banguela boca de feroz gula
à carne dos mortos a nutrir-se de ti própria...
“do barro advém o homem e ao barro ela retornará!”

Dedução à igualdade

Aprendi de mim e do mundo o quê?
eu; para mundo sou poeta sujo...
e o mundo em mim; um poema imundo!

Náufragos a céu aberto

Dias e noites se foram esvaídos nessa lâmina d’água turva
será de claridade o existir à emersão de um novo amanhecer?

Ligamento

Nada à unidade emudecida...
atento e múltiplo é o grito de todos...
com o clamor multiplicado
à necessidade da fé.

Expulsão materna

Fui extraído do ventre sofrido
sob rubro sangue à vida...
pensei ser um arco íris
o meu nascer na essência
da luz ao meu tempo
com início, meio e fim literário.
pois ser poeta é transfigurar-se em negro grafite
e encher as páginas de letras
em poemas à minha existência!

Ruptura

Nascer, viver e morrer:
nicho e cadeia existencial do ser
tal qual passageiro da agônica temporal!

Herança

Materialmente, eu deixarei o nada
resultado de minha não ambição
pelo abastado triunfo das posses...
mas,
estarei, ainda, entre a todas e todos
pois,
presente é o ser sem estar e sido estado físico
em sendo o verbo-poema, ainda!

Poesia à luz

Escrevi-te e transportei-te à ética
do pensamento ao branco papel
eis, pois, a alma poética
sob expulsão do útero verbal
à existência constituída
em eterno livro memorial!

Tua carne

Eis, a densa porção avermelhada
em 1/3 da tríplice matéria
na qual tua alma está acasalada
e imersa na vermelha vida em sangue!

Destinação

O azul oxigênio é ilusão óptica
à cor do firmamento
também, momentaneamente,
à turves de nuvens carregada de água
a se derramar inútil ao cáustico calor
da terra sob iminência constante
à metamorfose numa bola de fogo
a fauna e flora da própria humanidade!

Corpo ao ataúde

Eis, ainda, sobre mim
o perfume das flores
tal qual cobertor a um corpo inerte
fugido da vida e seus odores...
haverá, pois, nele e dele - em fuga - um espírito
e o pós, aqui jaz, sem aroma
e a fétida putrefação
para a faminta metamorfose:
iguaria de tudo à alimentação do barro!

Sumiço

Abandonado com tal desprezo
e deixado sem vigília alguma...,
que de si próprio e aos outros
foi desapercebido e despercebido
de existência nenhuma
por ele e por todos!

Ambiências

À celestial sempre nasce uma luz em fé:
dois olhos da Dinvidade sobre nós
- o sol e a lua - abrem-se sempre
e, eternamente, iluminam a vida.
à infernal sempre nascem sete pecados:
orgulho, avareza, luxúria, inveja, gula, ira e preguiça
compõem o roubar e matar - nutrem-se de trevas
e, cotidianamente, e apagam a vida!

Edificar

Palmo a palmo, metro a metro
à verticalidade em busca do infinito espacial...
passo a passo, caminho a caminho
ao horizonte na certeza do finito solo propício e água navegável...
ir em frente, ao além!

Enterro

Depositei corpos crus de vida
e sem os espíritos fugitivos:
uns à ascensão da eterna fé...
outros à imersão das profundezas céticas...
ó extremos de dúvida terráquea!

Atemporal

Eis que todas e todos são:
iluminada claridade pretérita do passado
e com luminoso presente ao afótico futuro!

Estéreo

Inútil líquido inundando a forma do nada...
eis, pois, o instinto sexo com prazer
e sem consequência semeadora do projeto de vida!

Dia e noite afóticos

O que aconteceu?
um amanhecer, um entardecer e um anoitecer
de sol, lua e estrelas apagados...
será que a humanidade está com frio
e a ela foi sobreposto o cobertor merecido do firmamento turvo,
e agora onde está o interruptor do tempo...
acaso ele vai acender o ocaso?

Linha do tempo

Início, meio e fim...
mistério é o caminhar e navegar precisos,
para aonde e porquê?

Verdade em versões

Ó sentimento confesso:
em palavra; ensurdece e sois lâmina que corta
o abstrato nojento, raivoso e odioso...
em gesto; presencia e sois testemunha que dá
a alma terna, companheira e necessitada
de ti, de mim e de nós!

Mentira

teu ditado é verme
sob obscuro verbo insidioso
à alma acasalada na carne armada no osso
em heterogeneidade de ambos
pela preferência do sangue a só um!

Fotografia

A complexidade física
é só o lado de fora da alma
que está no lado de dentro do corpo...
estática e inerte aparências luminosas do externo
em ocultação da beleza e/ou feiura formas afóticas do interno...

Pertencimento simbiôntico

O homem está dentro da cidade e carente dela
a cidade está fora do homem à agitabilidade dele
o homem deve estar na cidade
assim como ela deve estar nele
pois,
a cidade é o habitat social do cidadão
para o exercício comunitário de sua cidadania!

Patrimonial

A cidade é o palco de estrutura
em concreto misto ao homem:
pedra, areia, barro e ferro
nas vias, logradouros e edificações do teatro humano...
assim como o esqueleto é sua arquitetura
em complexo psicofísico do homem:
carne, osso e sangue e alma transeuntes
em personagens habitantes nas estéticas cênico...
eis, portanto,
a novela trágica no gênero habitat ficcional
do ir e vir ao espetáculo e, ainda, seu meio social!

Gestão neogrupal

O ápice da autoridade planeja
a tudo de si, para si, e por si próprio...
- primeiro os meus, teus e nossos -
insatisfeito faz-se o anseio sócio-popular
do cidadão à sua cidadania:
a cidade não é do homem, nem pelo homem
e muitos menos para o homem!

Exílio habitacional

O homem carrega em si a dor social dos outros
impregnada na alma dele...
o corpo da cidade vai se exilando nele!

Côncavo e convexo

A cidade é um espelho
a refletir suas imagens ao homem:
reais; ao que a tem sob benesses do poder...
irreais; àquele que a renega com mendicância a ele oferecida...
ó dia-a-dia de trajetória única:
o que vem do ônus de muitos abunda à gula social de poucos
e os contemplados com as iguarias
postas à mesa usurpada dos direitos e deveres cidadãos
vomitam à gananciosa digestão
sem preencher as vazias vísceras do estômago social munícipe!

Encontro eterno

Do barro divino adveio o homem
para se criar e recriar sua espécie
à cidade ficcional da fé
...etc.
ao barro na emudecido jazigo
retorna o homem de sua estada agônica
à cidade física em metamorfose contínua!

Empréstimo remunerado

As quantias que compõem o teu eu
à soma dos valores em atitudes tabulados
voltam sob recíprocos caracteres personificados
ao ser em estar e sendo propagado
no negócio da vida!

Amanhecida ressonância

Emudece a madrugada
no rompimento do alvorecer
- o cântico da passarada torna-se livre
à sinfonia matinal nos jardins urbanos
e sob o unguento do aroma floral...
transeunte, um homem poeta
passeia, matinalmente, pela cidade musa!

Rega à poética

Na performance da cidade abandonada
nasce uma inspiração no homem
e seu âmago se nutre de emoção...
então,
ele viaja à sua ilusão
e o escombro real do concreto ruído
é reconstruído tal qual o verso
na composição da poesia necessária
para a arquitetura do poeta munícipe
no seu habitat social
de sua simbiôntica ambiência!

Reino cidadão

Livres são o homem, o canino e o felino...
ambos vestidos de solidão
tão sós e despercebidos entre os muitos
são, também, desapercebidos da nudez tabulada
ora multiplicada na multidão alheia
à unicidade vadia dos animais
na estratificada pirâmide humano-social dos seres!

Nudez de sentidos

Ó inércia final estás nua
mas, no entanto, queres vestido o corpo morto
de mãos unidas e pés juntos um ao outro
e, a partir de agora,
qual a minha direção indicada
e qual caminho a seguir...
levado ao carrego de outros
sem prosseguirem próximos comigo ao após!

Último poema

Não há mais página em branco,
para o preto grafite
desenhar o esboço da alma.
a ponta do lápis quebrou
no livro fechado e envelhecido
à história sem ser escrita.
então, ao homem
a arte fora negada
sem ter sido amiga da vida.

Nenhuns de mim

Vejam, há muitos alguns no meu eu nenhum...
enterrados no oráculo atemporal ao nada
múltiplos sem resultados ao mais
mas, inseparáveis ao menos!

Míseros sobreviventes por ser ou estar...
em alma de sentimentos e corpo de carne, sangue e osso
à inexistente complexidade inevitável
e necessária de também existir

Então,
não encenas tuas porções...
pois, sem protagonista e ou coadjuvante
a cena da vida é o ato à morte
se nenhum vier de ti a alguém...
outros te negaram a ninguém
baixa a cortina do palco ao teu espetáculo sem platéia!

Noite ludovicente
à memória de Déo Silva

São Luis, um beco escuro, um ladrão e eu...
ele – mãos ao alto, a bolsa ou a vida!
eu – consulte-as, ambas estão vazias!


Colunas anteriores

Mais um ano de encantamento do poeta Déo Silva

Déo Silva, o poeta vanguardista No domingo, 27 de setembro, o nosso mais vanguardista bem humano-cultural na criação poética da literatura caxiense, Déo Silva, completara 37 anos de encantamento... haja vista que os poetas não morrem; eles se encantam! O poeta de vanguarda Raymundo Nonato da Silva, conhecido nos meios literários pelo pseudônimo de Déo Silva, nasceu em Caxias a 15 de agosto de 1937 e era filho de Jefferson...
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Data:28/09/2020 08:35

Sonho é ilusão

Não, o que me faz sentir essa saudadeÉ o despertar de um sonho meuQue não se tornou realidadeE ao meu sentimento adoeceu Sonho de amor não é realE só nos faz um grande mal E nesse sonho um abraço eu ganhariaNum encontro com um passadoE, nele, a porta de um amor eu encontrariaMas, o endereço no presente está errado Sonho de amor não é realE só nos faz um grande mal E aqueles braços no abraço...
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Data:21/09/2020 16:52

Há pedras/poesias no meio do meu habitat

Crédito: João Wharles Portela Para as Palmeiras, os Índios e os Sabiás: retratações de genuíno exercício literário caxiense, que me fazem teimar em cultuar a poesia, nesta terra, ainda, de sentimento nativista pelo encanto e beleza. À memória dos poetas, Déo Silva, Cid Teixeira de Abreu e Nauro Machado! PREFÁCIOS Caleidoscópio Poético Esta obra é a metamorfose de Wybson Carvalho...
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Data:14/09/2020 08:39

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