Um fenômeno político tem chamado a atenção de analistas no Maranhão em relação à forma como o eleitorado evangélico avalia e reposiciona seu apoio a pré-candidatos a cargos eletivos. Trata-se de um segmento que, em linhas gerais, compartilha valores semelhantes aos dos evangélicos em todo o país, com forte alinhamento a pautas conservadoras, como a defesa da família tradicional, a oposição ao aborto e o incentivo à livre iniciativa. Essas bandeiras, não raro, entram em choque com agendas identificadas como progressistas, defendidas por outros setores da sociedade.
O Maranhão, apesar de figurar entre os estados mais pobres da federação, apresenta uma dinâmica religiosa e política que merece atenção. Dados do IBGE (Censo 2022) mostram que, embora a maioria da população ainda se declare católica, cerca de 64%, o estado registrou um dos maiores crescimentos proporcionais de evangélicos no Nordeste entre 2010 e 2022. Atualmente, 25,37% da população maranhense se identifica como protestante ou evangélica, o que representa aproximadamente 1.449.366 pessoas.
Em termos eleitorais, esses números não passam despercebidos. Em disputas acirradas, esse contingente pode ser decisivo para definir vitórias. Parte dessa força está associada ao alto grau de fidelidade que muitos fiéis mantêm em relação às orientações de seus líderes religiosos. Embora a Constituição assegure o voto livre e secreto, eleições recentes no Brasil demonstram que o eleitorado evangélico tende a agir de forma relativamente coesa, especialmente quando identifica candidatos comprometidos com suas pautas. Por isso, políticos que compreenderam esse potencial têm investido fortemente nesse segmento, muitas vezes com retornos eleitorais expressivos.
Essa relação não é isenta de cobranças, e o apoio evangélico costuma vir acompanhado da expectativa de coerência e fidelidade às pautas defendidas durante a campanha. Quando essa sintonia se rompe, os reflexos podem ser severos, influenciando diretamente a ascensão ou a derrocada de carreiras políticas.
Um exemplo emblemático dessa dinâmica pode ser observado na atual disputa para o Legislativo federal. A senadora Eliziane Gama, eleita em 2018 com forte apoio do eleitorado evangélico em todo o estado, enfrenta hoje dificuldades visíveis no relacionamento com essa base. Com trajetória política marcada por ascensão rápida, deputada estadual, deputada federal mais votada em 2014 e senadora pelo Maranhão, Eliziane é pré-candidata à renovação de seu mandato. No entanto, o desgaste acumulado aparece tanto nas críticas frequentes nas redes sociais, inclusive em seus próprios perfis, quanto nos números das pesquisas eleitorais.
A mais recente sondagem, realizada pelo Instituto Econométrica e divulgada pelo Grupo Mirante, ouviu 1.362 eleitores entre os dias 8 e 11 de janeiro, com registro na Justiça Eleitoral sob o número MA-08591/2026. Nela, a senadora aparece apenas na quarta colocação, um desempenho abaixo do esperado para quem ocupa o cargo, a menos que sua base original esteja, de fato, migrando para outras opções.
Nesse cenário, ganha força o nome da deputada estadual Mical Damasceno, que surge como alternativa clara para assumir o papel de principal representante das pautas evangélicas no estado. Com discurso alinhado ao conservadorismo religioso, Mical vem sendo apontada como possível herdeira do eleitorado que, até pouco tempo, sustentava a trajetória política de Eliziane Gama.
O quadro que se desenha indica que os eleitores ligados às igrejas evangélicas no Maranhão tendem a fazer escolhas cada vez mais pautadas pela coerência ideológica e pela defesa explícita de seus valores. As eleições deste ano devem funcionar como um teste decisivo para confirmar, ou não, os prognósticos que vêm sendo debatidos por especialistas e observadores atentos da política maranhense.
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