Entre os dias 17 e 19 de outubro, Caxias tornou-se o epicentro de um importante momento de reflexão e articulação da Igreja Católica no Maranhão. O Centro de Formação da Diocese de Caxias do Maranhão recebeu a edição regional do Seminário da Campanha da Fraternidade 2026, reunindo 58 participantes das 12 dioceses maranhenses — todos com a missão de multiplicar, em suas regiões, o estudo e as propostas discutidas neste encontro, que mais uma vez reafirma o compromisso da Igreja com as causas sociais mais urgentes do país.
Sob o tema “Fraternidade e moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós!” (Jo 1,14), a Campanha da Fraternidade de 2026 volta o olhar para um direito humano fundamental — e ainda distante da realidade de milhões de brasileiros: o direito à moradia digna. Ao sediar esse encontro, Caxias se torna palco de um debate que ultrapassa as fronteiras da Igreja, tocando diretamente nas feridas sociais que marcam não apenas o Maranhão, mas todo o Brasil.
Durante três dias de intensa partilha, o seminário regional proporcionou uma rica troca de experiências entre os representantes das dioceses. Mais do que estudar o texto-base da campanha, os participantes vivenciaram um verdadeiro exercício de escuta, diálogo e discernimento sobre os desafios concretos da realidade maranhense.
A moradia, embora já tenha sido tratada em uma Campanha da Fraternidade anterior, volta à pauta porque o problema persiste e, em muitos lugares, se agravou. Padre Jean Maria, um dos assessores do seminário, lembrou que “não é a primeira vez que a Igreja reflete sobre a questão da moradia no Brasil. Já aconteceu outra vez. Mas continua sendo um problema, um desafio para o nosso país: ter uma moradia digna para todas as pessoas que moram aqui”.
Cidade de história rica, mas também de contrastes visíveis, Caxias reflete, em seu tecido urbano, os desafios que a Campanha da Fraternidade 2026 pretende discutir: desigualdade habitacional, crescimento desordenado, carência de infraestrutura e exclusão social. Quem percorre os bairros periféricos percebe que o “direito à moradia” ainda é um ideal distante para muitas famílias que convivem com a falta de saneamento, de regularização fundiária e até de condições básicas de habitabilidade. Assim, o tema da campanha dialoga diretamente com a realidade local, convidando também o poder público, as comunidades e os movimentos sociais a uma reflexão conjunta.
A Igreja, ao propor essa discussão, não pretende substituir o papel do Estado, mas recordar a dimensão ética e fraterna da moradia: uma casa é mais do que um teto — é o espaço onde se constrói a vida, a identidade, a fé e o sentido de pertencimento. Mais do que uma ação litúrgica, a Campanha da Fraternidade é uma voz profética no cenário nacional. Ao colocar a moradia no centro da pauta, a Igreja reafirma seu papel de consciência crítica diante de um sistema que frequentemente privilegia o lucro e o consumo em detrimento da dignidade humana.
Enquanto o país ainda convive com um déficit habitacional que ultrapassa 5 milhões de famílias, a Campanha da Fraternidade 2026 surge como um chamado à conversão coletiva — não apenas espiritual, mas social. O Evangelho de João nos lembra que “Ele veio morar entre nós”, e é justamente esse “morar” que se torna o centro da reflexão: se o próprio Cristo escolheu habitar entre os homens, nenhuma pessoa deveria viver sem um lar digno.
Caxias, ao sediar esse encontro, fez mais do que receber um evento eclesial. Tornou-se símbolo de um compromisso que precisa sair das paredes das igrejas e ecoar nas ruas, nas comunidades e nas políticas públicas. Porque a verdadeira fraternidade não se proclama apenas — ela se constrói, tijolo por tijolo, gesto por gesto, fé por fé.
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